Ozonioterapia em doenças virais: o que diz a ciência sobre SARS-CoV-2 e imunomodulação

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A pandemia de COVID-19 reacendeu o interesse por terapias adjuvantes capazes de modular inflamação, resposta imune e dano oxidativo. Entre elas, a ozonioterapia médica (oxigênio-ozônio, O2-O3) ganhou destaque – e também muitas dúvidas.

Uma das revisões científicas mais completas sobre o tema é o artigo
“Mechanisms of Action of Ozone Therapy in Emerging Viral Diseases: Immunomodulatory Effects and Therapeutic Advantages With Reference to SARS-CoV-2”, publicado em 2022 na revista Frontiers in Microbiology.

O trabalho é assinado por Alessandra Cenci, Iole Macchia, Valentina La Sorsa, Clemente Sbarigia, Valentina Di Donna e Donatella Pietraforte, e está disponível na íntegra em inglês em:
Frontiers in Microbiology – Article 10.3389/fmicb.2022.871645.

A seguir, resumimos os principais pontos da pesquisa em linguagem acessível.

O que é a ozonioterapia médica, segundo o estudo?

O artigo explica que, na prática clínica, a ozonioterapia médica é feita com uma mistura de oxigênio (O2) e ozônio (O3) em doses controladas, geralmente na faixa de 30–45 μg/mL (podendo variar conforme o protocolo).

O ponto-chave do trabalho é que, nessa faixa de dose, o ozônio não é usado para “matar vírus” diretamente dentro do corpo, mas sim como um estímulo controlado capaz de:

  • gerar uma resposta hormética (um estresse leve e benéfico),

  • ativar vias de defesa antioxidante,

  • modular a inflamação e a resposta imune.

Ou seja: não se trata de um desinfetante interno, e sim de um modulador biológico, quando usado de forma correta e padronizada.

Como o O2-O3 age nas células?

De acordo com Cenci e colaboradores, quando o ozônio entra em contato com o sangue e fluidos biológicos, ele reage rapidamente com:

  • antioxidantes presentes no plasma, como vitamina C, ácido úrico e glutationa

  • lipídios, em especial ácidos graxos poli-insaturados das membranas

Dessas reações surgem dois grupos de moléculas que vão mediar os efeitos da ozonioterapia:

  1. ROS (espécies reativas de oxigênio) em baixa quantidade

    • O principal é o peróxido de hidrogênio (H₂O₂).

    • Em níveis controlados, ele funciona como sinalizador celular, e não como agente de dano.

  2. Produtos de ozonização de lipídios (LOPs)

    • São moléculas derivadas da oxidação de ácidos graxos, como 4-HNE e outros lipoperóxidos.

    • Têm vida mais longa no organismo e atuam como mensageiros químicos, ativando vias de defesa e adaptação em diferentes tecidos.

O ozônio em si não penetra nas células; quem realmente “fala” com a maquinaria celular, segundo a revisão, são esses derivados (H₂O₂ e LOPs).

Hormese e mitohormese: o “estresse bom”

O estudo destaca que a ozonioterapia se baseia no conceito de hormese: uma pequena dose de estresse que faz o organismo reagir aumentando sua própria proteção.

Quando isso acontece dentro das mitocôndrias, o fenômeno é chamado de mitohormese. Em resumo:

  • doses baixas de O2-O3 →
    leve aumento de ROS controlados →
    ativação de vias que reforçam mecanismos antioxidantes, de reparo e de sobrevivência celular.

doses altas demais fogem dessa janela e podem provocar dano oxidativo, o que reforça a necessidade de protocolos bem definidos, como enfatiza o artigo.

Ativação do Nrf2: o “interruptor” antioxidante

Um dos pontos mais importantes da revisão é a explicação sobre a via Nrf2/Keap1/ARE:

  • Em condições normais, o fator de transcrição Nrf2 fica “preso” pela proteína Keap1 no citoplasma.

  • Os LOPs gerados pela ozonioterapia oxidam grupos específicos em Keap1 e liberam o Nrf2.

  • Livre, o Nrf2 vai para o núcleo e se liga a regiões do DNA chamadas ARE (Antioxidant Response Elements).

A partir daí, segundo o artigo, o organismo passa a produzir mais de 200 proteínas com ação antioxidante e citoprotetora, incluindo:

  • enzimas como SOD, catalase, glutationa peroxidase,

  • sistemas de detoxificação,

  • moléculas relacionadas à reparação mitocondrial e à manutenção do equilíbrio redox.

Na prática, isso significa maior capacidade de lidar com o estresse oxidativo e redução dos danos em situações inflamatórias intensas, como as observadas em doenças virais graves.

Efeitos imunomodulatórios e anti-inflamatórios

A revisão mostra que a ação da ozonioterapia não se limita ao antioxidante. Em doses terapêuticas, o O2-O3 também:

  • modula fatores pró-inflamatórios, como NF-κB,

  • interfere na ativação do inflamassoma NLRP3,

  • altera o padrão de citocinas, favorecendo uma resposta menos agressiva e mais regulada.

Os autores destacam ainda:

  • efeitos sobre linfócitos T regulatórios (Treg), que ajudam a controlar respostas exageradas;

  • possível impacto sobre o microbioma intestinal, que por sua vez influencia a imunidade sistêmica.

Por isso, o artigo descreve a ozonioterapia como uma estratégia imunomoduladora, e não simplesmente “imunoestimulante”.

O2-O3 e doenças virais emergentes, incluindo SARS-CoV-2

A pesquisa revisa evidências experimentais e clínicas que sugerem que a ozonioterapia pode atuar como adjuvante em doenças virais, especialmente em três frentes:

  1. Inflamação e tempestade de citocinas

    • Ao modular vias como Nrf2/NF-κB e NLRP3, o O2-O3 pode ajudar a reduzir respostas inflamatórias exageradas.

  2. Estresse oxidativo e dano tecidual

    • A ativação de defesas antioxidantes internas pode proteger tecidos expostos a altos níveis de radicais livres, comuns em infecções graves.

  3. Endotélio e coagulação

    • A revisão discute como o equilíbrio redox induzido pelo O2-O3 pode amenizar disfunções endoteliais e processos trombóticos, relevantes em quadros graves de COVID-19.

Os autores enfatizam que ozonioterapia não substitui tratamentos padrão, mas pode ser considerada como terapia adjuvante dentro de protocolos de pesquisa e prática clínica bem estabelecida.O2-O3 e proteção cardiovascular

Um ponto interessante abordado no artigo é o possível efeito protetor em células cardíacas:

  • Em modelos in vitro, a aplicação de O2-O3 em doses terapêuticas reduziu a expressão de citocinas inflamatórias e mediadores de dano em cardiomiócitos expostos a agentes tóxicos, como a doxorrubicina.

  • Esse efeito está ligado, mais uma vez, à ativação de Nrf2 e ao reforço das defesas antioxidantes.

Embora sejam dados experimentais, eles ajudam a explicar por que a ozonioterapia é estudada também em contextos de lesão miocárdica e inflamação sistêmica, ambos relevantes em infecções virais severas

Conclusão: o que este estudo acrescenta sobre ozonioterapia?

O artigo de Cenci et al., publicado na Frontiers in Microbiology, oferece uma visão detalhada, mas coerente, de como a ozonioterapia médica pode atuar como terapia adjuvante em doenças virais emergentes, com foco em SARS-CoV-2:

  • não é uma “cura milagrosa”,

  • não substitui terapias antivirais ou suporte intensivo,

  • mas atua modulando inflamação, estresse oxidativo e resposta imune, dentro de uma janela de dose bem definida.

Para profissionais de saúde e pesquisadores, a revisão funciona como uma base sólida para entender os mecanismos de ação do O2-O3 e orientar futuras investigações clínicas.

Quem deseja se aprofundar pode acessar o artigo completo (em inglês) em:
Mechanisms of Action of Ozone Therapy in Emerging Viral Diseases: Immunomodulatory Effects and Therapeutic Advantages With Reference to SARS-CoV-2 – Frontiers in Microbiology.

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