Cuidar da saúde animal é entender que cada organismo responde de uma forma, cada doença tem sua complexidade e cada tratamento precisa ser pensado de maneira individual.
É justamente nesse cenário que a ozonioterapia vem conquistando espaço na Medicina Veterinária.
Mais do que uma alternativa para determinadas condições clínicas, o ozônio medicinal vem sendo estudado como uma ferramenta complementar capaz de atuar em diferentes frentes do organismo: resposta ao estresse oxidativo, processos inflamatórios, controle microbiano e reparação tecidual.
E o mais interessante está justamente em entender como isso acontece.
O que o ozônio faz no organismo?
O ozônio medicinal é formado por três átomos de oxigênio (O₃) e possui alta capacidade oxidante.
À primeira vista, falar em “oxidação” pode parecer contraditório quando pensamos em saúde. Mas é aqui que entra um dos conceitos mais importantes para compreender a ozonioterapia: a hormese.
Quando utilizado em concentrações terapêuticas e de maneira controlada, o ozônio provoca um estímulo oxidativo breve. Esse sinal pode ativar mecanismos naturais de defesa do organismo, aumentando sua capacidade de lidar com o próprio estresse oxidativo.
Um dos caminhos mais estudados envolve a via Nrf2, responsável por regular genes relacionados à proteção celular e à produção de enzimas antioxidantes.
Em outras palavras, o objetivo não é simplesmente “adicionar ozônio” ao organismo. O que se busca é provocar um estímulo biologicamente controlado capaz de gerar uma resposta adaptativa.
Essa relação já foi observada experimentalmente e também em estudos veterinários. Em 2024, por exemplo, pesquisadores avaliaram a insuflação retal de ozônio em cães saudáveis e observaram um estímulo oxidativo inicial seguido pelo aumento da capacidade antioxidante dos animais, sem alterações clínicas relevantes dentro do protocolo estudado.
É justamente por isso que, em ozonioterapia, dose, concentração, via de aplicação e condição clínica não são detalhes: fazem parte do tratamento.
Ozônio e controle de microrganismos
Existe ainda outra característica importante do O₃: sua ação oxidante sobre estruturas microbianas.
Em contato direto com microrganismos, o ozônio e produtos ozonizados podem interferir em componentes celulares importantes. Estudos laboratoriais demonstram atividade contra diferentes bactérias, fungos e leveduras.
Essa propriedade também desperta interesse quando falamos em biofilmes.
Biofilmes são comunidades de microrganismos envolvidas por uma matriz protetora, o que pode tornar determinadas infecções muito mais persistentes e difíceis de manejar.
Pesquisas experimentais recentes com formulações ozonizadas demonstraram redução na formação de biofilmes e atividade sobre diferentes microrganismos.
Isso não significa que o ozônio substitua automaticamente antimicrobianos ou outras condutas clínicas. Significa que ele pode ampliar as possibilidades do médico-veterinário dentro de estratégias terapêuticas bem planejadas.
Onde a ciência veterinária já está avançando?
A literatura sobre ozonioterapia veterinária cresceu nos últimos anos e hoje já encontramos estudos clínicos em diferentes áreas.
Feridas e dermatologia
O manejo de feridas é uma das aplicações mais estudadas.
Em gatos com feridas cutâneas complexas, pesquisadores utilizaram técnicas como aplicação tópica de ozônio, soluções ozonizadas e aplicação perilesional como complemento ao tratamento convencional, observando evolução da contração e epitelização das lesões.
Água e óleos ozonizados também vêm sendo investigados por sua atividade antimicrobiana e por sua possível contribuição para o ambiente de reparação tecidual.
Na prática, isso abre espaço para sua utilização como adjuvante em protocolos de tratamento de feridas, sempre associado à avaliação clínica, limpeza, desbridamento e demais condutas necessárias.
Dor, ortopedia e reabilitação
Outra frente importante é o manejo de condições musculoesqueléticas.
Um estudo da UNESP avaliou cães com osteoartrite associada à displasia coxofemoral. Os animais que receberam ácido hialurônico associado ao ozônio apresentaram resultados favoráveis em algumas avaliações objetivas de apoio dos membros.
Em outro estudo prospectivo e randomizado, publicado em 2023, cães com doença discal toracolombar tratados com ozônio apresentaram evolução clínica comparável ao grupo tratado com eletroacupuntura nos parâmetros avaliados.
Ainda são necessários estudos maiores, mas esses resultados ajudam a construir o papel da ozonioterapia dentro de uma medicina veterinária cada vez mais multimodal.
Otites
A otologia também começa a apresentar dados clínicos interessantes.
Um estudo publicado recentemente no The Veterinary Journal avaliou o uso tópico de ozônio medicinal em cães com otite externa e encontrou melhora em parâmetros clínicos, citológicos e microbiológicos.
É um campo que ainda precisa de novos trabalhos, mas que demonstra como a pesquisa veterinária sobre ozônio continua avançando para além dos relatos de caso.
Precisão também é ciência
Existe um ponto fundamental quando falamos de ozonioterapia: mais ozônio não significa mais resultado.
O efeito biológico depende da concentração, da dose total, do volume, da via utilizada e da resposta de cada paciente.
Por isso, a geração do ozônio medicinal precisa acontecer de maneira controlada e previsível.
No Brasil, a ozonioterapia em animais é regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária por meio da Resolução CFMV nº 1.364/2020. A indicação, prescrição e aplicação são atividades clínicas do médico-veterinário, que deve considerar a evidência disponível, a condição do paciente, a dose e a via utilizada.
É justamente nesse ponto que tecnologia e conhecimento se encontram.
Tecnologia a serviço da saúde animal
Na Philozon, acreditamos que inovação só faz sentido quando vem acompanhada de ciência, precisão e responsabilidade.
O avanço da ozonioterapia veterinária não depende apenas de novas possibilidades de aplicação. Depende também de pesquisa, profissionais capacitados e equipamentos capazes de entregar concentrações e fluxos de maneira precisa.
Porque falar em ozônio medicinal é, antes de tudo, falar sobre controle.
Controlar a concentração.
Entender a dose.
Escolher a técnica adequada.
Conhecer o paciente.
A ciência já mostra caminhos importantes para o uso do ozônio em áreas como cicatrização, controle microbiano, ortopedia, reabilitação e otologia. E, à medida que novos estudos surgem, essas possibilidades ficam cada vez mais bem compreendidas.
Para nós, esse é o verdadeiro papel da tecnologia na Medicina Veterinária: oferecer ao profissional novas ferramentas para cuidar melhor — sem substituir o julgamento clínico, mas ampliando suas possibilidades.
Glossário rápido
Hormese: resposta adaptativa desencadeada por um estímulo de baixa intensidade e controlado.
Nrf2: proteína envolvida na ativação de mecanismos celulares de defesa antioxidante.
Biofilme: comunidade organizada de microrganismos envolvida por uma matriz protetora, associada a infecções persistentes.
Ozônio medicinal: mistura controlada de oxigênio e ozônio produzida por equipamento específico para aplicação terapêutica.
Referências científicas selecionadas
Galiè M. et al. Mild ozonisation activates antioxidant cell response by the Keap1/Nrf2 dependent pathway. Free Radical Biology and Medicine. 2018;124:114–121. Estudo mecanístico importante para a compreensão da resposta antioxidante adaptativa associada à exposição controlada ao ozônio. PMID 29864481.
de Oliveira PL, Mendonça MO, Gonçalves GS, et al. Ozone therapy by rectal insufflation in dogs: safety and oxidative stress — a randomized cross-over study. Veterinary Research Communications. 2024;48:2263–2280. doi: 10.1007/s11259-024-10407-y. Estudo controlado em dez cães saudáveis demonstrando estresse oxidativo transitório seguido de resposta antioxidante no protocolo avaliado.
Silva Júnior JIS, Rahal SC, Santos IFC, et al. Use of Reticulated Hyaluronic Acid Alone or Associated With Ozone Gas in the Treatment of Osteoarthritis Due to Hip Dysplasia in Dogs. Frontiers in Veterinary Science. 2020;7:265. doi: 10.3389/fvets.2020.00265. Ensaio randomizado em cães com osteoartrite secundária à displasia coxofemoral.
Sumida JM, Matera JM, Hayashi AM. Randomized single-blinded prospective comparison between ozone therapy and electroacupuncture for canine thoracolumbar disk disease. Research in Veterinary Science. 2023;161:173–179. doi: 10.1016/j.rvsc.2023.06.019. Estudo prospectivo, randomizado e com avaliação cega em cães com sinais de discopatia toracolombar.
Oros NV, Repciuc C, Mircean MV, et al. Clinical Evaluation of Medical Ozone Use in Domestic Feline Cutaneous Wounds—A Short Case Series. Animals. 2023;13:2796. doi: 10.3390/ani13172796. Estudo clínico preliminar acompanhando cicatrização por segunda intenção em gatos submetidos a modalidades locais de ozonioterapia.
Aydın O, Kumandaş A. Evaluation of the effect of ozone therapy on the treatment of cutaneous wounds with tissue-loss in dogs and cats. Journal of Advances in VetBio Science and Techniques. 2022. doi: 10.31797/vetbio.1104760. Investigação clínica comparativa de modalidades tópicas em cães e gatos.
Russo C. et al. Antibiofilm, Anti-Inflammatory, and Regenerative Properties of a New Stable Ozone-Gel Formulation. Pharmaceutics. 2024. Estudo experimental demonstrando atividade antimicrobiana e antibiofilme contra diferentes bactérias e leveduras, além de experimentos celulares relacionados à inflamação e reparação. É importante observar que se trata de evidência laboratorial, e não de um ensaio clínico veterinário.
Ünlü E, Gül Satar NY, Kahya Demirbilek S, Beker S. A novel approach to treating canine otitis externa with medical ozone: A comparative clinical, cytological and microbiological research. The Veterinary Journal. 2025/2026;315:106535. doi: 10.1016/j.tvjl.2025.106535. Estudo clínico comparativo recente sobre ozônio tópico em otite externa canina, com resultados favoráveis em parâmetros clínicos, citológicos e microbiológicos.
Conselho Federal de Medicina Veterinária. Resolução CFMV nº 1.364/2020 e atualização aplicável ao consentimento. Regulamenta a ozonioterapia em animais no Brasil, estabelecendo-a como atividade clínica privativa do médico-veterinário e exigindo respaldo técnico relacionado à indicação, dose e via, equipamentos apropriados e consentimento do responsável.

ozon news
Fique por dentro do que move a philozon