Entenda o conceito de hormese oxidativa e como ele ajuda a explicar os mecanismos biológicos investigados na ozonioterapia. Como uma molécula reconhecida por seu elevado potencial oxidante pode estar relacionada à ativação dos mecanismos antioxidantes do organismo? Embora pareça contraditória, essa relação é objeto de pesquisas científicas e envolve um fenômeno conhecido como hormese oxidativa. Para compreender esse mecanismo, é necessário conhecer o funcionamento do sistema antioxidante celular, o papel das espécies reativas de oxigênio e como determinados estímulos podem desencadear respostas adaptativas.
O papel do sistema antioxidante na proteção celular
Nosso organismo produz continuamente espécies reativas de oxigênio (ROS) como parte de seu metabolismo.
Essas moléculas desempenham funções importantes em processos fisiológicos, incluindo a sinalização celular e a resposta imunológica.
Entretanto, quando sua produção ultrapassa a capacidade de controle dos sistemas de defesa, pode ocorrer o chamado estresse oxidativo, um desequilíbrio associado a alterações em estruturas celulares, como lipídios, proteínas e DNA.
Para manter a homeostase redox, o organismo dispõe de diferentes mecanismos de proteção, incluindo enzimas e compostos antioxidantes, como:
- Superóxido dismutase (SOD): participa da conversão do radical superóxido em peróxido de hidrogênio.
- Catalase (CAT): atua na decomposição do peróxido de hidrogênio em água e oxigênio.
- Glutationa peroxidase (GPx): contribui para a redução de peróxidos.
- Glutationa (GSH): participa de diferentes processos celulares relacionados ao equilíbrio redox.
Esses componentes atuam de maneira integrada, ajudando a regular a presença de oxidantes e a preservar o funcionamento das células.
Mas o que acontece quando o próprio estímulo oxidativo participa da ativação dessas defesas?
O que é hormese oxidativa?
A hormese é um fenômeno biológico caracterizado por respostas diferentes a um mesmo agente, dependendo da intensidade do estímulo.
Em determinadas condições, estímulos de baixa intensidade podem desencadear mecanismos adaptativos. Por outro lado, exposições excessivas podem ultrapassar a capacidade de adaptação do organismo e provocar efeitos prejudiciais.
Um exemplo conhecido é o exercício físico.
Durante a atividade física, o organismo passa por alterações metabólicas e fisiológicas que representam um desafio temporário. Quando existe equilíbrio entre estímulo e recuperação, essas alterações podem contribuir para adaptações positivas.
Na hormese oxidativa, o princípio é semelhante: um estímulo oxidativo limitado pode participar da sinalização que mobiliza mecanismos naturais de defesa celular.
Esse conceito é importante para compreender algumas hipóteses relacionadas à ação biológica do ozônio.
O paradoxo do ozônio: mecanismo de ação, da oxidação à ativação do NRF2
O ozônio (O₃) é uma molécula formada por três átomos de oxigênio e apresenta elevado potencial oxidante.
Quando entra em contato com componentes de fluidos biológicos, reage rapidamente com diferentes moléculas, especialmente componentes lipídicos e antioxidantes.
Essas reações podem gerar produtos secundários, como o peróxido de hidrogênio (H₂O₂) e produtos de oxidação lipídica, incluindo o 4-hidroxinonenal (4-HNE).
Em determinadas condições, esses produtos podem atuar como mensageiros químicos, participando da ativação de vias de sinalização celular.
Uma das vias investigadas envolve o NRF2 (Nuclear Factor Erythroid 2-Related Factor 2), um fator de transcrição que regula a expressão de genes associados à proteção contra o estresse oxidativo.
Por meio dessa sinalização, as células podem aumentar a expressão de componentes envolvidos em seus sistemas de defesa.
É nesse ponto que encontramos o paradoxo:
O ozônio não é um antioxidante direto. Seu potencial oxidante, em condições específicas, pode desencadear sinais biológicos associados à ativação de mecanismos antioxidantes do próprio organismo.
Essa hipótese constitui uma das bases bioquímicas discutidas na literatura científica sobre ozonioterapia.
O que a ciência demonstra sobre a hormese e a ozonioterapia?
A relação entre ozônio e hormese oxidativa é investigada há décadas.
Em 2011, Bocci, Zanardi e Travagli publicaram no Journal of Translational Medicine uma revisão sobre a relação entre a exposição do sangue humano ao ozônio e as respostas biológicas dependentes da dose.
Os autores discutiram como as reações oxidativas desencadeadas pelo ozônio poderiam estimular mecanismos adaptativos, considerando a importância das condições de exposição para a resposta biológica.
Outro trabalho relevante, publicado por Valacchi, Fortino e Bocci em 2005, analisou a ação do ozônio sobre a pele.
A publicação abordou sua dupla ação, destacando que a exposição prolongada pode comprometer componentes antioxidantes, enquanto diferentes condições de aplicação podem produzir respostas biológicas distintas.
Mais recentemente, uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2025, por Alimohammadi e colaboradores, reuniu 12 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 846 participantes, para investigar a influência da ozonioterapia sobre marcadores de estresse oxidativo em doenças inflamatórias crônicas.
Na análise geral, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas em comparação aos grupos-controle. Entretanto, determinadas análises de subgrupos indicaram alterações favoráveis em alguns marcadores antioxidantes.
Esses achados contribuem para o desenvolvimento do conhecimento científico sobre o tema, embora a heterogeneidade dos estudos e as limitações dos resultados indiquem a necessidade de novas pesquisas.
É importante destacar que a compreensão de um mecanismo bioquímico não equivale, por si só, à comprovação de eficácia clínica em uma indicação específica.
Por que compreender a hormese oxidativa é importante para os profissionais da saúde?
O estudo da hormese oxidativa amplia a compreensão sobre a relação entre estímulos oxidativos, sinalização celular e mecanismos de adaptação do organismo.
No contexto da ozonioterapia, esse conhecimento reforça a importância de compreender fatores como concentração, dose, tempo de exposição, via de aplicação e características dos tecidos envolvidos.
A resposta biológica não depende exclusivamente da presença de ozônio, mas das condições em que suas reações ocorrem.
Por isso, estudar seus mecanismos de ação e interpretar criticamente as evidências disponíveis são etapas fundamentais para o desenvolvimento científico e para a avaliação de suas possíveis aplicações clínicas.
Perguntas frequentes sobre hormese oxidativa e ozônio
O ozônio é um antioxidante?
Não diretamente. O ozônio é um agente oxidante. Em condições específicas, as reações que ele desencadeia podem gerar sinais biológicos associados à ativação de mecanismos antioxidantes do próprio organismo.
O que é hormese oxidativa?
É o fenômeno em que um estímulo oxidativo limitado pode participar da sinalização que mobiliza mecanismos naturais de defesa celular, enquanto exposições excessivas podem ultrapassar a capacidade de adaptação do organismo.
Qual é a relação entre ozônio e NRF2?
Produtos das reações do ozônio, como o peróxido de hidrogênio (H₂O₂) e o 4-hidroxinonenal (4-HNE), podem atuar como mensageiros químicos e participar da ativação do NRF2, fator de transcrição que regula genes associados à proteção contra o estresse oxidativo.
A ozonioterapia reduz o estresse oxidativo?
Uma metanálise de 2025 com 12 ensaios clínicos randomizados não encontrou diferenças estatisticamente significativas na análise geral. Algumas análises de subgrupos indicaram alterações favoráveis em marcadores antioxidantes, mas a heterogeneidade dos estudos indica a necessidade de novas pesquisas.
Ciência e tecnologia para compreender novas possibilidades
O paradoxo do ozônio demonstra como fenômenos biológicos complexos podem desafiar interpretações aparentemente simples.
A relação entre oxidação, sinalização celular e mecanismos antioxidantes revela um campo de investigação que continua evoluindo, com novas pesquisas sobre os efeitos biológicos do ozônio e seus potenciais contextos de aplicação.
Na Philozon, acreditamos que a evolução da saúde passa pela integração entre conhecimento científico, tecnologia e responsabilidade. Acompanhar os avanços da ciência é parte essencial desse compromisso.
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Referências científicas
- Bocci, V.; Zanardi, I.; Travagli, V. (2011). Ozone acting on human blood yields a hormetic dose-response relationship. Journal of Translational Medicine, 9, 66. https://doi.org/10.1186/1479-5876-9-66
- Valacchi, G.; Fortino, V.; Bocci, V. (2005). The dual action of ozone on the skin. British Journal of Dermatology, 153(6), 1096–1100. https://doi.org/10.1111/j.1365-2133.2005.06939.x
- Alimohammadi, M. et al. (2025). Effect of ozone therapy on oxidative stress indices in chronic inflammatory diseases: A systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Advances in Redox Research, 17, 100143. https://doi.org/10.1016/j.arres.2025.100143

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